"Rei morto, Rei posto"
Escrito pela professora Fátima Barbosa
Sábado, dia 02 de abril de 2005, morreu o Papa João Paulo II. Os sinais de luto ganharam uma proporção ainda maior porque quem morria era Karol Wojtyla, padre polonês que viveu pessoalmente dois flagelos do século passado: o nazismo e o comunismo. Ele foi eleito em 1978 e certos requisitos foram determinantes para a eleição de Karol: juventude, personalidade forte, o fato de falar seis línguas modernas fluentemente e experiência em lutar contra o maior inimigo da religião católica: o comunismo. O Papa mostrou logo de início que iria usar a cruz para combater a foice e o martelo (símbolos do comunismo). Em 1979 ao visitar a Polônia como Papa eleito (vamos lembrar que a Polônia era a terra natal de João Paulo II e era socialista) ele propiciou que seu povo, pela primeira vez em quase quarenta anos, manifestasse abertamente seu descontentamento com o autoritarismo político, a estagnação econômica e a inércia social a que estavam submetidos. O operário Lech Walesa era líder do sindicato polonês chamado Solidariedade, entidade clandestina na Polônia que nasceu sem o consentimento do Estado Polonês. Esse mesmo governo socialista e ditatorial tentou destruir o Solidariedade e sufocar as aspirações democráticas da sociedade polonesa. O Papa e Lech Walesa tinham uma sintonia e isso abriu caminho para a democratização da Polônia e para o restante do leste europeu (socialista).
Recordando ainda mais os tempos mais longínquos do passado de Karol Wojtyla, devemos lembrar que a Polônia foi a primeira vítima do regime nazista. Em primeiro de setembro de 1939 as forças nazistas invadem o território polonês dando início à Segunda Guerra Mundial. Karol integra um grupo clandestino que prega a resistência cultural aos alemães, encenando peças de grandes autores poloneses e freqüenta um grupo de estudos religiosos também clandestinos, já que a atividade está proibida nas cidades polonesas ocupadas pelos alemães. Ele participou da luta armada polonesa contra as tropas nazistas.
"POR
MINHA CULPA E MINHA TÃO GRANDE CULPA..."
João Paulo II pediu
perdão aos judeus pelo comportamento da Igreja no Holocausto durante
a Segunda Guerra. Afirmou que faltou aos cristãos a resistência
espiritual para fazer frente ao massacre nazista.
Na terra de Fidel Castro pede que Cuba se abra para o mundo e o mundo se abra
para Cuba. Critica o embargo americano a Cuba desde a revolução
cubana em 1959 e defende a libertação dos prisioneiros cubanos
que fizeram críticas ao regime socialista.
Pede perdão também pelas Cruzadas (guerras santas entre cristãos
e muçulmanos no final da Idade Média) e pelo Tribunal da Santa
Inquisição que também durante a Idade Média e
posteriormente na época da Contra-Reforma julgou os casos de heresia
(questionamentos à Igreja Católica). A Santa Inquisição
utilizava-se de torturas para obter confissões e de castigos severos
para punir os infratores, ou seja, quem questionava os seus dogmas.
Pede perdão também aos índios que foram massacrados em nome das ganâncias dos conquistadores europeus e em nome da difusão da fé católica na América.
"NÃO,
NÃO E NÃO"
Em 1995 ele publica a Encíclica Evangelium Vitae, em que condena o
aborto,a eutanásia e o uso de métodos contraceptivos. O homossexualismo
e o sexo fora do casamento foram condenados também por João
Paulo II. O homossexualismo foi visto como uma anomalia pelo Papa e consequentemente
pela Igreja e a parada gay realizada em Roma anualmente foi criticada duramente.
O Papa divulgou também um documento em que reafirma sua suposta superioridade
em relação a outras religiões denominadas cristãs
e indica que o único caminho para a salvação é
o catolicismo.
Em 1994 ele brada de sua janela sobre a Praça de São Pedro:
"Nós Protestamos". A crítica era direcionada à
ONU que publica um texto apoiando o aborto e o uso de métodos artificiais
de contracepção.
Condenou também a clonagem de seres vivos e a experiência com células troncos dizendo a seguinte frase: "Frequentemente , o homem se comporta como se Deus não existisse e até mesmo se coloca no lugar de Deus. Há quem queira decidir com manipulações genéticas a vida humana e determinar o limite da morte."
O ATENTADO
Em 1981 no dia 13 de maio
o Papa foi atingido por um tiro disparado pelo turco Mehmet Ali Agca enquanto
abençoava peregrinos na Praça de São Pedro. As balas
atingem uma de suas mãos e o abdômen, o que o obriga a submeter-se
a duas cirurgias. Em 1983 na época do Natal, encontra-se com Agca na
prisão em Roma e o absolve. No mesmo mês visita uma igreja luterana,
iniciativa inédita na história do papado. Os motivos do atentado
nunca foram esclarecidos e o Papa atribui sua recuperação às
bênçãos de Nossa Senhora de Fátima, pois o atentado
foi em 13 de maio dia da Santa.
No dia 08 de abril de 2005 em cenas sem precedentes depois da missa fúnebre na Praça de São Pedro o Papa foi enterrado com o grito de um oceano de gente: Santo, Santo, Santo!!!Era o fim do terceiro pontificado mais longo de todos os tempos. Paralisado e silenciado pela doença de Parkinson, João Paulo II carregou sua cruz diante dos olhos do mundo. O que fica para o mundo (cristão ou não) é que é impossível não admirá-lo pela sua coragem na doença. A Igreja sai humanizada com esse episódio.
HABEMUS
PAPAM
"Habemus Papam"
ou seja, Temos Papa. O cardeal Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI conta
com 78 anos atualmente e é severo e reservado guardião da doutrina
cristã. Na páscoa de 2005 o antigo Papa estava bastante enfermo
e não fez o sermão sendo substituído pelo Cardeal Ratzinger
e seu sermão entrou para a história como o "Manifesto Ratzinger".
Ele defendeu que a Igreja deveria manter com rigor seus princípios
da moral e da ética ou seja, ele dava sinais aos outros cardeais de
que ele não abriria mão de sua linha dura para angariar votos
e ser o próximo papa.
A Igreja
Católica perde ano a ano fiéis principalmente na Europa e a
ala mais reformista da Igreja que a Igreja permita a ordenação
de mulheres e anseiam pelo afrouxamento nas condenações aos
métodos contraceptivos, ao aborto e ao reconhecimento legal do casamento
entre homossexuais. O objetivo dessa ala reformista é que a Igreja
pare de perder fiéis. É quase certo que essa ala não
conseguirá nada no pontificado de Bento XVI. A rigidez doutrinária
e moral do novo papa não facilitará a vida para padres pedófilos,
padres com mulher e filhos ou padres modernos que defendem a teologia da liberação
sexual.
Ainda sobre Bento XVI, papa alemão, sabe-se que aos 14 anos tornou-se
membro da Juventude Hitlerista, o que era compulsório (obrigatório)
para estudantes e aos 16 anos ele fez parte da guarnição de
uma unidade antiaérea em Munique e em 1945 desertou do Exército
Nazista.
TEOLOGIA
DA LIBERTAÇÃO
Segundo o Papa Bento XVI : "A América Latina desafiou a cristandade
com a Teologia da Libertação, mas hoje tudo isso faz parte do
passado. Sobrou o apelo para que a fé assuma uma responsabilidade política
e social."
Nos anos 80 Joseph Ratzinger enfrentou os adeptos brasileiros da Teologia da
Libertação , desmantelando sua doutrina. Os remanescentes da Teologia
da Libertação que desde os anos 70 fazem parte de uma esquerda
eclesiástica e os adeptos da Renovação Carismática,
movimento mais vigoroso e recente não devem se sentir á vontade
com a escolha de Bento XVI. Ele foi o responsável pelo desmonte doutrinário
da Teologia da Libertação que pregava o evangelho com interpretações
marxistas. Frei Leonardo Boff era o principal representante da Teologia da Libertação
no Brasil . Esse frei defendia a Igreja para os pobres, a Igreja participando
dos anseios e da luta da classe menos favorecida . O então Cardeal Ratzinger
divulgou que a opção da Igreja pelos pobres atentava contra a
sã doutrina cristã. Outra rusga na relação entre
Boff e Ratzinger foi quanto à interpretação de Boff de
que a Igreja foi fundada pelos apóstolos de Cristo e não pelo
próprio Cristo. A afirmação se aceita implicaria que a
Igreja não é criação divina e sim humana. Ele não
aceita a posição de Boff e reafirma que a única Igreja
de Cristo é a católica. Boff também defende o caráter
divino da Virgem Maria e Ratzinger o questiona. Frei Leonardo Boff desligou-se
da Igreja em 1992. No Brasil hoje cerca de 20% dos padres tem simpatia pela
Teologia da Libertação. Essa corrente perdeu muita força
e é provável que agora a Igreja sob a liderança de Bento
XVI tenha atritos com os padres carismáticos que incorporam o espetáculo
às suas missas, com música alta e até aeróbica.
Nem política, nem espetáculo. É a Igreja dos sonhos de
Bento XVI. Pobre Padre Marcelo Rossi! Que será dos "animaizinhos
que subiram de dois em dois?"